Os quatro curtas apresentados no mês de setembro no cineclube Além (da) Imagem fazem parte de uma poética feminina e feminista atual. Retratos de pessoas e situações que denunciam e envolvem problemáticas que atravessam a muitas mulheres.
Através de dois documentários “Bonita” (dir. Mariana França, 2022) e “O canto” (dir. Isa Magalhães e Izabella Vitório, 2023) somos conduzidos primeiro pelas mulheres individualmente, conhecendo suas histórias de dor, de sofrimento calado, de solidão. Porém é na força da coletividade que o ciclo, a narrativa e os curtas se fecham.
Como um abraço ao ser acolhido por alguém que conhece a sua história.

Em “Mamãe” (dir. Hilda Lopes Pontes e Klaus Hastenreiter, 2022) o tema da solidão também está presente e com um final inesperado, também à sua maneira liberta sua personagem.
E falando em liberdade de novo, a protagonista de “Isso sempre acontece” (dir. Lara Koer, 2022) recebe um “poder” que mais atualmente vemos mulheres assumindo sem ter que admitir, ao mesmo tempo, o papel da bruxa. Personagem único quando tratava de mulheres assumindo poderes em narrativas de tempos mais antigos.

O que os quatro curtas também tem em comum é que não são dirigidos por homens (“Mamãe” foi dirigido por uma pessoa não binária com codireção de um homem cis, os outros foram dirigidos por mulheres cis) e por isso trazem uma camada a mais de verdade e coragem em suas narrativas.
Por que é importante trazer esta informação? Em 2023 apenas 38% dos filmes de grande bilheteria possuíam protagonistas mulheres.
Um dado que chama mais atenção é “que em filmes com pelo menos uma diretora e/ou escritora, as mulheres representavam 48% de protagonistas (…) Já em longas com diretores e/ou roteiristas exclusivamente masculinos, as mulheres representaram 19% dos protagonistas. ”

Jogo luz neste ponto já que ver o protagonismo de mulheres crescendo, ainda não quer dizer que estejamos equiparados, nem em nossas próprias narrativas, nem em nossa posição na indústria. “No ano passado, 70% dos longas de maior bilheteria nos Estados Unidos tinham dez ou mais homens em cargos-chave nos bastidores, enquanto apenas 8% apresentavam a mesma proporção de mulheres.”
Celebremos sempre e não tomemos como normal algo que está em via de normalizar-se.
Ainda sinto que quando dedicamos um espaço apenas para filmes dirigidos por mulheres o pensamento frequente é que o público alvo também é só o feminino e esta ideia é a mais difícil de mudar.
Os temas tratados por narrativas dirigidas por mulheres são tratados como femininos pois as mulheres ainda são minoria no cinema. No entanto as problemáticas e tramas tratadas, por exemplo nestes curtas, podem ser tomados com temáticas que interessam a todos, e assim mudamos pouco a pouco o cenário. Tanto dentro da indústria cinematográfica, quanto com o público, como dentro de nossas historias.
Este texto faz parte do Cineclube Além (da) Imagem, projeto contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema – Edição Especial Lei Paulo Gustavo/2023.