Além (da) Imagem

Quando a Arte Fecha os Olhos: Ensaios Sobre Matéria, Memória e Movimento

Há filmes que nos contam histórias; há filmes que nos ensinam a ver. Entre essas duas formas, surgem obras como Piece of Art, Guaracy, Antes de Falar de Amor e Eu Vejo Você, quatro curtas que compartilham um eixo sensível: a criação diante da perda, a percepção que surge no vazio entre intenção e acontecimento, o olhar que precisa inventar modos de existir quando a visão falha. Esses filmes não apenas narram, mas experimentam a linguagem audiovisual como instrumento de pensamento, como corpo que respira e toca o mundo.

Em Piece of Art, de Thaís Igari, o gesto da ceramista sobre o torno é microcosmo da luta artística. Cada rotação da roda de argila é tentativa de impor forma ao mundo, de domesticar a matéria. Mas a peça se recusa, e a frustração se torna corpo: o ato de amassar o barro não é apenas destruição, é performance silenciosa. Este gesto lembra o trabalho de Eva Hesse, cuja escultura explora a tensão entre controle e acaso, ou Michelangelo Pistoletto, cuja “arte relacional” propõe que a interação entre matéria, artista e público seja tão importante quanto o objeto final. Quando a turista enxerga beleza no que era rejeição, o curta evoca Marcel Duchamp, lembrando que a obra existe também no olhar que a legitima. A escultura, a performance e o cinema convergem aqui: o gesto performático da destruição é, simultaneamente, obra e experiência.

Guaracy, de Eliete Della Violla e Daniel Bruson, desloca o centro da experiência para a escuta. A neta investiga o avô por meio da música, compondo uma narrativa sonora que mistura lembranças, histórias e imaginação. Cada corte funciona como nota de uma partitura: o cinema aqui é tempo e ressonância, e a narrativa linear cede espaço à textura sonora. O curta dialoga com experiências de cinema experimental de Maya Deren, que buscava transpor a experiência do corpo para a tela, ou com os filmes visuais-sonoros de Stan Brakhage, nos quais a percepção do espectador se torna protagonista. Também remete a performances sonoras de John Cage, onde o silêncio e o ruído são igualmente significativos. A obra demonstra que a criação pode existir sem ser visível, ecoando entre gerações e atravessando memórias.

Imagem do filme “Antes de falar de amor”

Em Antes de Falar de Amor, de Sarah Tavares, a câmera Super 8 torna-se extensão do olhar infantil. A menina filma a casa da avó, transformando o cotidiano em espaço mítico. O preto e branco não é nostalgia, mas uma forma de enxergar o mundo pela primeira vez. Este curta dialoga com o cinema experimental de Abbas Kiarostami e Chantal Akerman, que exploram a poética do cotidiano e a intimidade dos espaços domésticos, mas também com o gesto performativo de Sophie Calle, para quem o registro da vida transforma o banal em arte. O curta mostra como o olhar inaugural, inocente, reorganiza o mundo — revelando que filmar pode ser uma forma de criação tão potente quanto esculpir ou dançar. A menina filma para inventar o real.

Eu Vejo Você, de Karolina Trindade, leva o gesto criativo à radicalidade do corpo. Nicolas, dançarino que perde a visão, precisa reinventar o espaço através do tato, memória e percepção sensorial. A câmera dança junto, o plano se curva ao gesto, e a montagem se torna ritmo do corpo que escuta. Este curta evoca a tradição da dança contemporânea de Pina Bausch, em que o corpo é território de narrativa, e performances de Marina Abramović, que transformam presença e resistência em linguagem. Ao remover a visão, o filme explora a corporeidade como forma de percepção estética, mostrando que a criação não depende da visão tradicional, mas de experiência sensorial expandida.

Juntos, os quatro curtas constroem um arco poético: do barro à música, do olhar infantil à dança cega, a criação surge como resposta à ausência, à falha ou à impossibilidade. Piece of Art é a gênese, o embate do criador com a matéria; Guaracy é a escuta do que não pode ser visto; Antes de Falar de Amor é o nascimento do olhar; Eu Vejo Você é sua reinvenção. Cada obra mostra que a arte não é apenas resultado, mas processo — espaço de invenção, de falha, de reinvenção.

As diferenças entre os curtas evidenciam as particularidades das linguagens: a escultura de Igari enfatiza resistência e peso; a música de Guaracy explora o tempo e a memória; o cinema de Tavares transforma o olhar e a narrativa em invenção; a dança de Trindade reconfigura a percepção do corpo no espaço. Ao mesmo tempo, a semelhança fundamental é clara: todos os filmes tratam da criação em relação à perda — da forma, da memória, da visão ou da inocência. Essa dialética entre tentativa e ausência lembra o trabalho de artistas performativos como Yves Klein, que explorava a efemeridade do gesto; ou os experimentos de Fluxus, nos quais a obra se realiza na interação, no acaso, no gesto, não no objeto final.

O que torna esses curtas potentes é o uso do audiovisual como ferramenta de pensamento. Enquadramento, som, luz, ritmo, corte — tudo funciona como pincel ou argila, como gesto performativo. Cada curta articula a percepção sensorial com a construção poética: a câmera não é neutra, o plano não apenas mostra, o corte não apenas ordena. O audiovisual se torna extensão do corpo e da mente do artista, espaço de invenção e diálogo entre linguagens.

Além disso, os quatro filmes dialogam com a história das artes plásticas e performativas. O gesto de Igari lembra a escultura radical de Eva Hesse e a tensão de Giacometti; Guaracy traz ecos do silêncio musical de Cage e da escuta de Oliveros; Antes de Falar de Amor conecta-se à exploração do cotidiano e da memória de Calle, Akerman e Kiarostami; Eu Vejo Você insere-se na tradição da dança performativa, de Pina Bausch e Abramović, onde o corpo é meio, mensagem e percepção. Cada curta propõe uma reflexão sobre limites, espaço, tempo e materialidade — da matéria ao corpo, do som à imagem, da ausência à presença.

 

O fio que une essas obras é a relação entre criação e percepção, entre fracasso e invenção. Cada obra questiona o olhar: quem vê, quem cria, quem legitima? A ceramista, a neta, a menina, o dançarino — todos experimentam a impossibilidade de dominar o mundo, e é nesse descontrole que a criação acontece. Eles lembram que a arte é prática de atenção, gesto ético e inventivo, uma maneira de estender o olhar além do visível, de tocar o mundo através do corpo, da memória e do som.

Esses curtas nos convidam a refletir sobre o que é, de fato, criar. Não é dominar, mas abrir-se ao acaso. Não é representar, mas sentir. Não é completar, mas permanecer no gesto — mesmo que ele falhe, mesmo que seja invisível, mesmo que seja efêmero. É o que conecta cinema, artes plásticas e performance: a insistência em inventar formas de ver e existir, mesmo quando os olhos não veem.

 

 

Este texto faz parte do Cineclube Além (da) Imagem, projeto contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema – Edição Especial Lei Paulo Gustavo/2023.

Paula Chiodo

Paula Chiodo é escritora e pesquisadora das intersecções entre palavra, imagem e corpo. Sua produção transita entre a arte, a literatura e o audiovisual, explorando o gesto criativo como espaço de reinvenção sensível e poética. Vive em Florianópolis, onde desenvolve projetos de escrita e curadoria independente.|

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