Além (da) Imagem

Entrevista com a diretora Coraci Ruiz sobre o filme Limiar

Levando em consideração a exposição de questões bastante íntimas em Limiar, como foi o processo de aceitação de sua própria família, primeiro em participar do filme depois com a exibição?

Foi tranquilo. Naquela época o Noah costumava assistir a alguns YouTubers que compartilhavam seus processos de transição em seus vídeos, então ele já tinha uma familiaridade com esse tipo de registro, até mais do que eu. Ele mesmo já tinha e tem até hoje o hábito de compartilhar muitas coisas de sua vida pessoal nas redes sociais, por exemplo as cenas pós-créditos do filme foram extraídas da conta de Instagram dele. Minha mãe também topou numa boa. Eu tive o cuidado de mostrar versões preliminares da montagem para todos os envolvidos mais diretamente – Noah, minha mãe, Julio (meu companheiro) e Pedro, pai do Noah, para que pudessem dizer caso algo ali os deixasse desconfortáveis. Para mim era importante que cada um se sentisse bem com o filme.

 

Em que momento do processo que Noah estava passando você percebeu que o que estavam vivendo poderia transformar em um filme?

Eu estava fazendo um doutorado sobre documentários autobiográficos de mulheres e por isso imersa em narrativas pessoais e intimistas. Então por um lado eu conseguia vislumbrar essa possibilidade, mas por outro, no começo era difícil saber se seria possível – se eu teria material suficiente, se o Noah toparia, se seria possível articular tudo o que eu estava vivendo numa narrativa organizada. Não lembro exatamente quando me dei conta, acho que depois de um ano ou dois filmando essas conversas entendi que elas poderiam sim se tornar um filme, e como o Noah topou, parti para as outras filmagens (conversa com a minha mãe, meu filho mais novo, material de arquivo, narração, etc).

 

Você usa a câmera como um dispositivo de intimidade e pra talvez ter conversas que sem a presença dela talvez não aconteceria. Como se deu essa construção?

Quando o Noah me falou que estava em dúvida sobre a sua identidade de gênero, eu fiquei curiosa para entender melhor o que isso significava, e a primeira coisa que me ocorreu foi pedir para gravar uma entrevista com ele sobre isso. Ele topou, e essa primeira conversa foi muito legal. Acho que nós dois sentimos isso, pois acabamos criando esse hábito de trazer a presença da câmera em vários outros momentos em que teríamos uma conversa – no começo por iniciativa minha, mas com o tempo ele mesmo sugeria momentos de filmagem. No nosso senso comum a câmera é algo que inibe, intimida, mas na nossa experiência foi o contrário, ela acabava por nos colocar numa situação extra-cotidiana que facilitava o diálogo.

 

Filmar o cotidiano sempre veio com a vontade de um dia transformar essas recordações em uma obra audiovisual ou este material caseiro foi tomando outros significados a partir da transição de Noah?

Eu não costumava filmar o cotidiano. A maior parte do material de arquivo mais antigo, com meus filhos pequenos, foi feita pelo meu companheiro e produtor do filme, o Julio. As conversar com o Noah foram uma excessão nesse sentido, foi um momento que eu senti essa necessidade. Acho que tem a ver também com o meu doutorado, pois ao assistir muitos filmes autobiográficos e estudar o tema, passei a entender melhor essa possibilidade de filmar a minha própria intimidade como ferramenta para entender meu filho e vivenciar esse processo da transição com ele.

 

Limiar foi selecionado para o prestigioso festival Hot Docs, a partir daí como se deu a carreira do filme e a recepção do público? E também você poderia nos contar um pouco sobre como o filme contribuiu para o entendimento das questões de gênero, sexualidade e orientação sexual?

O primeiro ano de exibições foi na pandemia, então não pudemos ter a experiência de assistir com o público, de sentir as reações e etc, foi um pouco triste nesse sentido. Mas a recepção do filme, mesmo no online, foi sempre muito boa, muito afetuosa, muitas pessoas se emocionaram, então foi legal sentir, mesmo de longe, esse acolhimento. O “Limiar” foi exibido em mais de 80 festivais em diferentes países e recebeu 22 prêmios. Além disso, foi exibido na TV e foram realizadas dezenas de sessões autogestionadas por meio da Plataforma Taturana, que é especializada em distribuição de impacto de documentários. O filme circulou muito, eu participei de muitos bate-papos online, dei entrevistas. A nossa ideia é que o filme pudesse ser usado como um disparador de diálogos, principalmente em contextos inter-geracionais, como famílias, escolas, processos terapêuticos, etc. E nesse sentido acho que funcionou bastante, funciona até hoje.

 

 

 

A diretora

Coraci Ruiz

Diretora, Diretora de fotografia e Co-montadora. Se formou em Dança pela Unicamp em 2002, fez um mestrado em Cultura Audiovisual e Mídia em 2009 e doutorado em Multimeios na mesma universidade. É sócia fundadora da produtora Laboratório Cisco, sediada em Campinas desde 2003, com foco em documentário em diversos formatos – filmes de curta, média e longa metragem, vídeos, séries e programas televisivos. Sua atuação é centrada na direção e na direção de fotografia, mas trabalha também como montadora e no desenvolvimento de projetos.

 

 

Este texto faz parte do Cineclube Além (da) Imagem, projeto contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema – Edição Especial Lei Paulo Gustavo/2023.

 

Paloma Gomide

Cineasta e fotógrafa. Mestre em Escrita de Roteiro na EICTV em Cuba. Dirigiu os curtas “Onde era mar” e “Se a vida me desse um desejo”. Realizou os ensaios “As irmãs e o sol” (2020); “Venho de outros mares” (2022); recebeu o prêmio aquisição no 50º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto com “À meia noite estarei de volta”.

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