O curta documentário “Pele Negra, Justiça Branca” é um filme denúncia que toca em temas polêmicos, os quais a justiça brasileira ainda não se mostra preparada para lidar. Lidando com um tema tão pesado, desde que o projeto foi concebido para o cinema, criaram-se caminhos para que o filme fosse um processo de construção conjunta e não excludente como a situação contada em sua narrativa. As diretoras contam abaixo como foi este processo de realização de luta antirracista desde o pensamento cinematográfico até o produto final.
- Como foi o processo de tomada de decisão para realizar um filme sobre o caso Gracinha?
Cinthia Rocha – Como antropóloga fui convidada a realizar o Estudo para Identificação da Comunidade Quilombola Toca/ Santa Cruz e seu território tradicional no ano de 2015, assim cheguei no quilombo três meses após a retirada das filhas da Gracinha. A comunidade toda estava abalada e eu era a primeira pesquisadora a adentrar o universo do grupo além do Movimento Negro Unificado, que já prestava assessoria. Participei dos atos e movimentos públicos em denúncia do ocorrido e foi então, em uma dessas manifestações que encontrei as cineastas Valeska e Vanessa, com quem compartilhei a indignação e o desejo de somar forças para estender a denúncia através da ferramenta audiovisual.
Valeska Bittencourt – Ao tomar conhecimento do Caso Gracinha através de uma matéria publicada no portal Catarinas, um trecho em especial chamou minha atenção. A frase, parte da sentença da juíza no processo de destituição da guarda, diz: “A mãe, por descender de escravos, sua cultura não prima pela qualidade de vida, é inerte aos cuidados básicos de saúde, higiene e educação.” Essa frase, representativa do racismo estrutural que embasa muitas decisões do judiciário brasileiro, foi o gatilho que me fez perceber a urgência em denunciar essa história emblemática e revoltante.
Vanessa Gasparelo – Valeska e eu trabalhávamos juntas num outro documentário, ela viu uma matéria de denúncia do Portal Catarinas sobre o Caso Gracinha, mostrou para mim, ficamos impactadas e indignadas com toda a história, principalmente por conta da argumentação da juíza na conclusão do caso ao condicionar o fato de a Gracinha ser descendente de pessoas que foram escravizadas a uma suposta incapacidade de prover condições de saúde, alimentação e higiene às suas filhas, ainda crianças. Já conhecíamos a Cinthia de alguns eventos e amizades em comum, mas afinamos este laço assim que nos encontramos em um ato realizado em frente à Comarca de Garopaba em defesa à mãe Gracinha. Dali, iniciamos uma conversa muito potente e necessária sobre realizar um projeto de documentário para torná-lo ferramenta de impacto em busca de alguma forma de reversão do caso, como também para escancarar tamanho absurdo dentro do judiciário catarinense. Começamos a escrever o projeto, inscrevemos no edital de Cinema da FCC de 2018 e o projeto foi contemplado.
- Como foi o processo de envolver a comunidade quilombola na produção de “Pele Negra, Justiça Branca”?
Cinthia Rocha – Foi muito interessante, um aprendizado mútuo. Antes de iniciarmos a produção do filme, realizamos, ao longo de um final de semana, uma oficina de capacitação audiovisual com alguns jovens quilombolas. Esse movimento foi uma contrapartida da equipe e que se mostrou muito importante para sensibilizar a comunidade sobre o potencial do audiovisual como ferramenta para os registros da história narrada pelos próprios quilombolas e como estratégia de luta na comunicação de suas demandas.
Vanessa Gasparelo – Desde o início nós pensávamos em fazer uma oficina como contrapartida social do projeto, conversando com a Cinthia, que já conhecia a comunidade, com as mulheres do MNU, as líderes Luciana, Lurdinha e Vanda, a gente chegou à conclusão que seria interessante fazer uma oficina de documentário. Para também a gente não só chegar na comunidade para fazer o filme como se a gente estivesse só retirando algo, mas sim indo como uma troca. Na verdade, fazer um filme, principalmente documentário está muito ligado a isso na minha concepção: caminhos que têm a possibilidade de troca. A partir daí, as coisas começam a funcionar de um jeito muito mais amplo, consistente e complexo não só para o filme, mas para a arte enquanto resistência, enquanto realização também. Então, o que eu vi é que foi muito interessante esse primeiro momento a gente ir lá conversar com a comunidade, dizer que a gente ia fazer essa oficina, junto com as mulheres do MNU. Nada seria possível se elas não estivessem junto com a gente, e por conta da Cinthia, que já tinha ficado um tempo na comunidade por conta do mapeamento territorial como antropóloga.
O que foi muito especial foi que através dessa oficina de documentário a gente começou a perceber as pessoas que estavam realmente interessadas, quais eram os interesses específicos. Algumas muito tímidas ainda, outras já bastante empolgadas, as crianças, as meninas que ficaram super interessadas que inclusive depois elas acabam sendo as personagens que vão dar vida à essa representatividade das crianças da Graça. São cenas lúdicas que estão ali para trazer leveza para uma história que é tão pesada, tão profunda, tão visceral, que é tão injusta. O que punge dessa história toda é que apesar de toda essa dilaceração foi possível criar essas cenas muito por conta da entrega dessas crianças, da entrega dessas pessoas da comunidade. Uma das coisas muito bacanas também que eu me lembro da oficina foi que a gente já convidou os profissionais para integrar a equipe de filmagem com a condição de participar da contrapartida social. Porque cada profissional falaria sobre sua área e dessa forma a pessoa também está se apresentando, está trazendo o lugar que você vai ocupar na comunidade nos dias das gravações. E foi muito legal porque todas as pessoas da equipe toparam isso, e teve um desenrolar muito especial.
- No processo de pesquisa para a produção de um documentário é sempre importante a construção da intimidade com os personagens. Neste caso, em que a aproximação entre diretoras e personagens envolvia um tema delicado, como foi a abordagem, tanto em pesquisa, quanto em entrevista, para tocar neste tema, não ultrapassando uma linha tênue entre dor e respeito?
Cinthia Rocha – Contamos com o apoio das mulheres do MNU mediando situações mais sensíveis, especialmente com a personagem principal Gracinha. Ela manifestou que não tinha condições de envolver-se com o filme e recordar a história, pois já vinha sofrendo muito com a perda das filhas e não tinha condições psíquico-emocionais de remexer nas dores. Seu posicionamento foi integralmente respeitado e tivemos que buscar uma alternativa para contar a história, que foi estabelecer vínculos com outros moradores da comunidade que acompanharam o processo de racismo para ouvi-los e construir a narrativa sobre estes outros pontos de vista, já que toda a comunidade se sentiu ameaçada diante tal violência.
Vanessa Gasparelo – A gente buscou o máximo possível de delicadeza dentro das nossas condições, claro, que fomos afinando aos poucos também. Mas o principal ponto foi, como eu falei anteriormente, não seria possível se o Movimento Negro Unificado não estivesse ali com a gente. Essa aproximação das líderes com a comunidade quilombola foi fundamental para chegarmos nesse momento de estar tratando de um tema grave e tão doloroso para aquela comunidade. O filme não seria a mesma coisa se a gente não tivesse tido esse apoio, essa atuação conjunta. A Cinthia também, por ser Antropóloga e ter feito o mapeamento da comunidade, já tinha criado vínculo com algumas pessoas, então isso também propiciou a aproximação. E a oficina que a gente fez nos permitiu nos aproximar de várias pessoas, não todas, foi uma parcela da comunidade que quis participar, a gente abriu para quem quisesse. Mas, foram algumas pessoas que participaram e a partir dali a gente começou a estabelecer intenções, deixando sempre da forma mais transparente possível qual era o propósito do documentário, o que a gente estava fazendo ali, quando a gente ia novamente, quais seriam os nossos passos seguintes. Isso tudo foi gerando um pouco mais de confiança. Algumas pessoas da comunidade trabalharam no filme, a gente tem a Daniela, que fez a produção local, a gente tem o Rafa, que fez o making of. Então, a gente foi interagindo junto, da melhor forma possível, porque nem sempre a gente sabe como chegar, a gente vai entendendo. Cada projeto documentário tem isso, você está entrando numa nova comunidade, conversando com novas pessoas, existe uma problemática diferente. Nesse caso era um assunto extremamente sensível, doloroso e extremamente pungente no coração dessas pessoas. Então precisava ter um cuidado redobrado. E acho que conseguimos realizar algo em conjunto que foi muito potente, forte e esse é o ponto para mim que foi mais bonito, perceber que em um dado momento existia um processo de construção conjunta mesmo, cada pessoa colocando o conhecimento que tinha.
E sobre a aproximação com a Gracinha, desde o início, a gente também tinha o intermédio das Mulheres do Movimento, a gente sempre respeitou esse espaço, sempre conduziu a partir do que elas nos colocavam. E aí, quando chegou o dia de fato da entrevista com a Gracinha, quando a gente estava para começar a gravar de verdade, ela decidiu que ela não queria falar, por N motivos, mas o principal deles é que ela estava muito, muito, muito machucada e muito triste, muito silenciada por toda essa injustiça, por tudo que aconteceu, e nesse momento a gente jamais poderia forçar uma barra, a gente respeitou. Foi até o limite que ela nos colocou e respeitou a posição dela. E isso fez uma mudança completamente significativa no filme, porque inicialmente a gente ia construir uma história muito baseada na fala dela. A partir do momento que ela decidiu não falar e com todo o direito que ela tinha, a gente decidiu que a gente ia falar sobre o caso, que ia trazer a comunidade, que ia trazer profissionais falando sobre o que aconteceu dentro do meio, enfim, de todo, principalmente a comunidade, as mulheres do movimento e essas pessoas que quiseram falar do Judiciário e de rede de apoio que também toparam falar com a gente.
- A representatividade negra se faz presente também em quem tem a palavra no filme. De que maneira foi pensado e executado não replicar o racismo também no fazer do cinema?
Cinthia Rocha – Estivemos ao longo do processo sempre atentas a esse ponto, cientes de nosso lugar como três diretoras brancas, mas ao mesmo tempo, dispostas a nos despir, observar e aprender especialmente junto às mulheres do MNU, que foram parceiras na condução do processo.
Vanessa Gasparelo – Desde o início a gente tinha uma noção do tamanho do desafio que era a gente fazer um filme sobre questões que envolviam lugar de fala que não era nosso. Que não era só um lugar, são alguns lugares de fala que não eram nossos. Eu, por exemplo, não sou mãe, não sou negra, não sou quilombola, não sou daquela comunidade, nunca tive a realidade do desprivilégio financeiro, então a gente sabia que a gente teria que ter cuidado redobrado com relação a tudo isso. Então, muitas vezes a gente errava e as mulheres do movimento vinham, traziam a realidade, ou alguma pessoa da comunidade trazia, conversava. A gente foi desconstruindo isso para que se reconstruísse uma nova situação. Um dos exemplos que é muito bom é que uma das coisas que fizemos com a narrativa foi que a gente não colocou uma voz no filme. A gente não tem uma voz off no filme, são as próprias pessoas da comunidade, as pessoas do movimento, as próprias pessoas do judiciário, as próprias pessoas que estão falando que conduzem a narrativa, isso traz mais legitimação, elas que estão falando. E não existe uma voz construída por nós três diretoras e pelo nosso montador, o Thiago. Então, era muito importante não ter um narrador off e isso foi estabelecido desde o princípio. Outra coisa importante foi que a montagem só se definiu mesmo a partir do momento que as três principais líderes do movimento unificado assistiram ao filme, o corte “quase” final e aí elas nos deram várias críticas, vários feedbacks, várias coisas importantes que pontuaram a reconstrução dessa montagem para que ela ficasse de acordo com o que elas estavam entendendo de importantes. A partir dali a gente fez uma nova reestruturação, fomos trabalhando até chegar num resultado que contemplasse o que elas estavam buscando também. Foi um processo muito importante de ter um lugar de escuta, de assimilar os nossos erros, entender o que é o racismo estrutural que está dentro da gente – porque existe -, e aceitar, processar de outra forma. Tudo isso nos fez evoluir e entender, a cada passo, quais eram as etapas que a gente precisava respeitar. Muito cuidado, respeito e empatia porque não queríamos em nenhum momento ferir o entendimento e queríamos acessar da melhor maneira possível o que era importante, qual era a essência para elas e para a comunidade.
- Um documentário que acredita na força da coletividade foi também uma experiência compartilhada no processo de produção do filme; as três diretoras, o Movimento Negro Unificado, Comunidade Remanescente do Quilombo da Toca e Santa Cruz. Como se deu esse processo de construção em conjunto da narrativa de Gracinha?
Cinthia Rocha – Desde o princípio, como antropóloga e uma das diretoras, sabia que o projeto somente daria certo se essa cocriação acontecesse com os agentes envolvidos. Cada etapa foi sendo vivenciada a partir da premissa de uma comunicação direta e sincera entre todos. Várias idas e vindas desde a estrutura prévia do roteiro, muitos diálogos, muitas escolhas e soluções encontradas coletivamente para alinhar expectativas e estabelecer com clareza a responsabilidade e o ponto de vista de cada envolvido.
Vanessa Gasparelo – Além de toda a construção em conjunta contada já anteriormente, uma coisa que me deixou muito feliz de ter feito esse filme também, além de todo o impacto, foi a forma como o filme ficou, enquanto configuração final, como ferramenta mesmo, eu acho que ele tem uma potência muito importante, ele veio dizer algo ao mundo enquanto filme também. Mas tem algo que me punge muito na construção de cena, que é uma das cenas que não existiam no roteiro. A gente mapeou, decupou várias cenas, inclusive as cenas lúdicas, a gente mapeou várias delas. Tem muito material, tem 20 horas de material. E existiam muitas cenas lúdicas, imagens de passagem, construção de cena com as meninas, com as crianças e tal. Para trazer esses momentos de respiro, momentos de leveza, de suspender um pouco toda essa dor que está praticamente em 95%, talvez, do filme, ali presente. Então, era muito importante trazer esse lugar, do que significariam as crianças brincando, interagindo, tendo esse lugar da própria comunidade, de poderem estar ali seguras, perto das suas famílias, porque todo mundo ali é família. E é uma comunidade que tem essa cultura de cuidar uns dos outros. Não é só porque o filho é meu, que eu somente cuido do meu filho. Se eu vejo que tem duas crianças na rua, eu estou de olho nelas, né? Então, isso é uma coisa muito forte nessa comunidade. As crianças nunca estão sozinhas, elas estão sempre sob o olhar de quem está por ali. E aí uma das cenas que aconteceu que foi muito forte para mim, assim, me emocionou e me deixou muito feliz também de ter participado da construção da cena, é que teve um momento de pausa, que a gente estava pausando para tomar um café, e a gente estava com as crianças, o Gabrielzinho e a Yasmim e a gente estava ali conversando e tal.
E aí surgiu um momento em que eu fui ajudar essas duas crianças a comerem maçã, elas queriam que eu cortasse com a faca uns pedaços de maçã para eles comerem. Eu me ofereci, na verdade, porque eu vi que eles queriam comer e tal, e aí eles vieram ali para perto da gente, eles estavam curiosos, queriam interagir também. Eu peguei a faca e comecei a entregar um pedaço para ele, um para ela, e a gente começou a conversar no olhar, a brincar, e eles comendo a maçã, eu pegava um pedaço, entregava para um, entregava para o outro, e eu comecei a girar, comecei a brincar com eles. E aí o Marx (diretor de fotografia), como o Marx sempre foi muito sensível na fotografia, ele percebeu, ele estava ali perto, ele percebeu e a gente começou a girar juntos, os três. E aí ele me pediu para ir um pouquinho para o lado, eu fui me afastando, a gente foi se entendendo e aí ele conseguiu pegar aquela cena que as crianças estão girando, que é uma cena que eu acho uma das cenas mais lindas e leves do filme. E tudo foi possível graças a uma sensibilidade conjunta, minha, das crianças, do Marx, de todo mundo que estava ali de alguma maneira, as outras pessoas que entenderam, não passaram na frente. E as crianças se permitiram também aquela brincadeira. Então foi algo que para mim foi bem significativo. E que foi um momento de direção que eu me senti realmente criando algo que por mais que não tivessem palavras, tinha muita significância. Então me punge até hoje, toda vez que eu vejo essa cena, me lembra essa sensação do quanto o contexto conjunto de criação está lá. Está ali. Tudo está em sincronia, em sintonia, e eu acho que isso é fazer cinema, né? Ao mesmo tempo que isso é também você. A gente está em respeito mútuo.
- Vemos que “Pele Negra, Justiça Branca” trata de um tema muito duro também com poesia. Quais foram os recursos que as diretoras se utilizaram para compor o filme e contar a história em termos de linguagem cinematográfica?
Cinthia Rocha – Como eu já tinha vivido no quilombo por mais de um mês durante o período em que estava fazendo o estudo de identificação da comunidade e do território, muitos detalhes sensoriais do cotidiano da vida quilombola já tinham me chamado a atenção, especialmente o contexto afetivo central entre as mulheres. Assim, quando escrevemos a proposta de roteiro para submeter o projeto ao Prêmio Catarinense de Cinema da FCC, não tinha dúvidas de que essa história de violência só poderia ser contada com sensibilidade, pois dentre tanto sofrimento historicamente vivenciado por esta comunidade herdeira da escravização restavam traços muito bonitos e sensíveis da vida humana em coletividade. Transmitir sons, movimentos, texturas, detalhes através das lentes da câmera e da captação de som, bem como valorizar o silêncio e as vozes femininas em poemas e cantos trouxe esse clima maternal que é um dos principais traços de uma comunidade de matriarcas.
Vanessa Gasparelo – A gente tinha uma decupagem pré-filmagem bastante pensada, pensamos cena a cena, por entrevistas, as pessoas que iam ser entrevistas, depois a gente teve cenas lúdicas que eram cenas compostas mesmo. Então, por exemplo, a gente sabia que a gente queria a cena da Dani confeccionando as bonecas, a cena da Dani trançando os cabelos da Bianca, a gente tinha já isso no nosso script. Tínhamos determinado isso quando pensamos em cenas para trazer essa poesia, realmente para desenvolver esse lugar também da leveza dentro de algo tão caro, algo tão pungente na comunidade, tão pesado. Então a gente tinha uma estrutura narrativa que contemplava uma série de cenas, mas também permitimos que os imprevistos, aquilo que é bonito e que está no campo do sublime, do mágico pudesse aparecer.
E dentro da narrativa a gente já tinha também a premissa de colocar a professora lendo a carta, porque essa carta foi para o processo de defesa da Graça. As poesias, as escrevivências da Conceição Evaristo foram fundamentais para a narrativa, elas foram criando formas. A Val que trouxe essa ideia de colocar as escrevivências da Conceição e a Conceição, por sua vez, liberou os direitos para a gente usar os dois contos “Para Menina” e “Olhos d’água” no meio da narrativa, e os trechos se mostraram fundamentais para a construção de cenas.
- Sabemos que o curta foi exibido na Comunidade Remanescente do Quilombo da Toca e Santa Cruz onde foi gravado. De que forma o filme foi recepcionado pela comunidade?
Cinthia Rocha – A comunidade ficou emocionada e impactada com o resultado. Como antropóloga que acompanha a comunidade há quase dez anos, sei o quanto eles se fortaleceram neste tempo para reivindicarem seus direitos e terem orgulho de sua história, raízes e cultura. Tenho certeza de que o filme foi um dos instrumentos de apoio nessa caminhada.
Vanessa Gasparelo – Então, essa exibição foi muito bonita, muito emocionante. Várias das pessoas da comunidade ficaram muito emocionadas. Essa exibição só foi possível porque o Alex Brandão, através do CineClub Angola, nos emprestou os equipamentos de projeção, foi até lá com a gente, não nos cobrou absolutamente nada, ele foi muito parceiro. A gente foi configurando os equipamentos ali, a Dona Verônica, que também está no filme, que é uma das matriarcas lá da comunidade, cedeu o espaço do pátio ali da casa dela, ali a gente fez também um café com vários alimentos, todo mundo colaborou de alguma maneira. Então foi uma interação assim, deu bastante gente, acho que tinha umas 30 e poucas pessoas pelo menos, foi muito forte. A gente tem registro, tem até um time-lapse da gente construindo o espaço, criando o espaço de exibição. Então, foi um momento muito forte, emocionante, de trocas. Teve conversa depois, sempre rolam debates [quando promovemos exibições], mas esse era o mais importante de todos, essa estreia na comunidade. Porque só ali a gente conseguiria ter um retorno real do que fala o filme, onde ele impacta de verdade. É quem mais tem interesse no processo. Isso reverberou de forma física e virtual, de maneiras muito bonitas e poderosas, não para o filme em si só, mas para a história da Gracinha, para toda essa luta dela e da comunidade. Então, foi muito importante esse movimento e era uma das nossas premissas desde o início: era levar o filme para a comunidade o quanto antes. A gente até segurou um pouco mais, porque estava rolando pandemia, final de pandemia, retorno do coronavírus, enfim. A gente demorou um pouco, justamente para também ter um cuidado com a saúde da comunidade, até que, enfim, a gente conseguiu fazer esse movimento e foi muito, muito importante para o filme e principalmente, acho que para a comunidade. Foi uma troca bastante genuína nesse dia, assim, me emociona até de lembrar.
- “Pele Negra, Justiça Branca” teve sua estreia no Festival do Rio. Como foi a recepção do público diante do conteúdo do documentário?
Vanessa Gasparelo – No Festival do Rio foi incrível, uma experiência muito forte, o filme foi como convidado e estava numa seleção de vários filmes que também faziam sentido entre si. O público foi muito forte com as falas que trouxeram, na forma como reagiram, as pessoas estavam vibrando muito com a história, bem impactadas e sensibilizadas. A gente sabe que é um filme difícil de assistir porque é um soco no estômago, porque essa história é uma sequência de injustiças, que aconteceu somente com uma pessoa. Teve uma líder do Movimento Negro Unificado do Rio que elogio muito filme, que enquanto movimento antirracista ele tem que ser isso mesmo, que temos que levar histórias como essa para a frente, que conseguimos trazer na melhor configuração possível uma história tão difícil e triste como a da Graça, trazendo esse impacto para onde o filme for principalmente nas comunidades quilombolas.
O filme está tendo também esse movimento dentro da educação quilombola, o movimento negro, porque elas têm o filme também, então elas levam. A gente também vem sendo muito buscadas para trabalhar o filme no campo da educação tanto quilombola, quanto em universidades. E para mim, a meu ver, é o movimento mais importante de todos, que mais impacta de verdade porque vai para camadas de base. Recentemente, por exemplo, fizemos uma exibição dentro da CESUSC dentro do curso de direito, para conversar com estudantes dessa área, para que elas tenham noção do que elas podem ter nas mãos lá para a frente e que precisam ser sensíveis a estes casos.
- Qual o andamento do caso Gracinha hoje, 2024, dez anos depois?
Cinthia Rocha – O processo foi arquivado e segue em segredo de justiça. A mãe Gracinha, toda a comunidade e o MNU seguem sem saber o paradeiro das crianças. O MNU gostaria de remexer no processo para no mínimo saber onde estão as filhas de Gracinha, que foram retiradas ainda crianças e hoje já são adolescentes, mas para isso é necessário alguém da área jurídica que se envolva no caso.
Vanessa Gasparelo – Dez anos depois, e essa história nunca se resolveu de verdade. A mãe Gracinha nunca mais conseguiu ver as crianças, nunca mais teve notícias das suas filhas, nem sabe onde elas estão e como o caso foi julgado como Vara da Infância e da Adolescência, tem a questão do sigilo jurídico. Então, quando as crianças foram adotadas já não tinha mais como a mãe saber para onde elas foram e isso toca num lugar muito doloroso. Foi muito dilacerante para essa mãe, para essa comunidade não saber para onde essas crianças foram, se elas estão juntas, se elas estão bem, se elas estão sendo bem cuidadas, se estão sendo bem tratadas, ninguém sabe. A comunidade não teve nenhuma chance para tentar que as crianças voltassem, teve um acompanhamento, um processo que foi aberto para tentar que as crianças fossem adotadas pela própria comunidade, pelos parentes da Graça, Dona Verônica e Seu Jorge que são família extensa da Graça, mas não tiveram sucesso. Foi tudo muito injusto, a forma como essa mãe foi julgada, sem nunca ter tido uma segunda chance. Ela, logo no início quando retiraram a guarda dela, antes de fechar o caso, logo no início do processo, ela se dedicou a fazer tudo que o judiciário estava pedindo para ela. Foi estudar, procurar um emprego, então ela fez tudo que ela podia para se colocar de maneira a colaborar com o judiciário. E mesmo assim não teve uma segunda chance. Isso é muito sério. E se tivesse sido julgado com um olhar sensível para dentro da comunidade quilombola, teria sido julgado em âmbito federal e teria que ter tido toda uma proteção em nível antropológico, que não houve na Vara da Infância e da Adolescência Estadual. É algo desolador porque ninguém mais tem notícias.
As Diretoras

Cinthia Creatini da Rocha – Antropóloga, consultora e pesquisadora envolvida com comunidades indígenas e quilombolas no reconhecimento e delimitação de territórios. No cinema, fez dois curtas-metragens relacionados à cultura indígena. Filmografia: “Mbyá Rekó Pyguá, a luz das palavras”, curta documentário, Contraponto Produções, codireção, 2012. “De Mitos a Bichos”, curta-metragem documental, Contraponto Produções, codireção, 2015.

Vanessa Rosa Gasparelo – Formada em Cinema/UFSC, é roteirista, pesquisadora, diretora geral, diretora de produção, coordenadora de pós-produção, assistente de direção e edição, continuísta, produtora de objetos e crítica de cinema pela empresa Descontínua Artes. Há 15 anos, atua em diversos projetos de séries, longas e curtas-metragens. Atualmente, trabalha como produtora associada, assistente de direção, revisora, pesquisadora, voz original e narradora com a empresa Plot Kids. Escreveu o artigo “Nonna, as Transfigurações e as Ressignificações dos Tempos” para a seção “No Set” da Revista Além (da) Imagem, 2021. Filmografia: Direção e Roteiro – “Inteira” (curta de ficção em Super 8, 2022), “Pele Negra, Justiça Branca”, (curta documentário, 2020) e “Salud!” (Fenavid 100×100/Bolívia, 2015); Continuidade – “Spectros” (Netflix EUA, 2020), “Helen” (Prosperidade Content, 2020), “Dente por Dente” (Glaz Entretenimento, 2020), “Viaje Inesperado” (Brasil/Argentina, 2018) e “Guigo Offline” (Boulevard Filmes, 2017).

Valeska Bittencourt – Formada em Cinema, é roteirista, diretora geral, diretora de arte, produtora, montadora e artista visual. Filmografia: “A vida é assim” documentário longa-metragem, em finalização; “Pele Negra, Justiça Branca” documentário curta-metragem, 2021; “Duas ilhas, um céu”, documentário curta-metragem, 2012; “Margarida, 100 Primaveras”, documentário curta-metragem, 2010; “Transmutação do Azul” curta-metragem ficção, 2008. Montagem:“JK no Exílio”, 52′, 2010, com direção de Betrand Tesson, documentário média metragem, coprodução França/Brasil. Vídeo Instalação: “Yo no quiero que llores sola por las playas” obra que integrou a Exposição “Duas Ilhas, um céu”, no Museu de Arte Moderna de Chiloé, Chile.
Este texto faz parte do Cineclube Além (da) Imagem, projeto contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema – Edição Especial Lei Paulo Gustavo/2023.